Festival Mãos da Moda e Feira do Artesanato em Salvador – Neste último domingo (24) encerrou a primeira edição do Festival Mãos da Moda Bahia, no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_Bahia). Realizado pela Nordestesse em parceria com o Riachuelo Lab e o Programa do Artesanato da Bahia do Governo do Estado através da Setre, o festival promoveu o encontro entre seis marcas autorais baianas e seis grupos de artesãs têxteis de diferentes regiões do estado. Ao todo, mais de 60 artesãs participam da iniciativa, que resultou em coleções cocriadas ao longo de seis meses.
Com um sucesso de público e de negócios, a Feira do Artesanato do festival consolidou-se como um dos grandes destaques da programação. Ao longo dos três dias, mais de 5 mil pessoas passaram pelos jardins do MAC Bahia para conferir de perto o talento e a riqueza do trabalho manual exposto. Essa expressiva movimentação de visitantes resultou em uma excelente conversão em vendas que foi injetada diretamente na economia dos artesãos locais, fortalecendo a economia criativa e o sustento de dezenas de famílias de artesãos baianos.
Estreitar laços entre moda e artesanato
Para Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse, o projeto nasceu da necessidade de aproximar criadores de moda autoral dos grupos artesanais brasileiros. “O Mãos da Moda surge para estreitar esses laços, garantindo recursos humanos e financeiros para que essa parceria resulte numa coleção coesa e que fortaleça tanto as marcas quanto os grupos artesanais”, afirmou.
Parceira do projeto através do Riachuelo Lab, a Riachuelo reforçou o compromisso de investir na criatividade brasileira e fortalecer o ecossistema criativo do país. “O Riachuelo Lab nasce como um espaço de experimentação, criação e conexão entre talentos da moda e da cultura”, afirmou Cathyelle Schroeder, CMO da marca.
Após a estreia em Salvador, as coleções seguirão para Fortaleza, onde serão apresentadas no Dragão Fashion Brasil, maior semana de moda do Norte-Nordeste.
Confira como foi no sábado
SÁBADO: Areia, TEROY13 e Inttuí
Primeira a desfilar, a Areia apresentou a coleção “Mimosa 2: Açucarados”, desenvolvida em parceria com a Associação das Mulheres Artesãs Padre André (AMAPA), de Correntina, na Bahia. A coleção partiu das memórias da infância, dos rituais afetivos e da simbologia dos erês para construir uma narrativa onde o sagrado e o cotidiano se encontraram através do fazer manual.
Inspirada pelo universo dos doces, das flores e das celebrações populares, a coleção trouxe bordados artesanais elaborados em colaboração com as artesãs, além de peças em linho, tule e sarja que exploraram transparências, textura e volumes amplificados. Com forte presença de manualidade, cores vibrantes e referências ancestrais, “Mimosa 2: Açucarados” reforçou a proposta da Areia de unir moda, identidade e memória em criações atravessadas pela cultura baiana.
Em seguida, a TEROY13, de Alexsandro Rodrigues e Albert Lefundes, apresentou “Vertigem – Uma noite no ClubT13”, coleção criada em parceria com o grupo Mulheres do Algodão de Guanambi. A apresentação partiu da ideia de vertigem como metáfora para os desequilíbrios, tensões e reinvenções da vida contemporânea, atravessando referências das paisagens baianas, dos símbolos adinkras, dos saberes ancestrais e da cultura clubber.
Streetwear e rendas
Com forte influência do streetwear e do clubwear, a coleção misturou jeans, brim e couro a técnicas artesanais desenvolvidas especialmente para o desfile, como o bordado “corrente dupla”, criado pelas artesãs sobre tecidos mais pesados. A proposta equilibrou força e delicadeza em peças que celebraram o corpo em movimento, a efemeridade e a potência criativa das manualidades baianas.
Encerrando o primeiro dia, a Inttuí, de Washington Carvalho, levou ao MAC_BAHIA a coleção “Pele de Céu”, criada em parceria com a Rendavan – Associação de Rendeiras de Dias D’Ávila. A coleção nasceu do encontro entre moda, arte e arquitetura, construída a partir do diálogo entre os universos de Lina Bo Bardi e Heitor dos Prazeres.
Das referências arquitetônicas surgiram formas orgânicas, estruturas fluidas e volumes que evocaram espaços vivos e acolhedores; já da obra de Heitor vieram a cor, o movimento e a narrativa visual atravessada pela cultura brasileira. A renda de bilro produzida pelas artesãs da Rendavan apareceu como elemento central da coleção, costurando passado e presente em superfícies têxteis que remetiam à ideia de expansão do corpo e da memória.
Domingo
DOMINGO: Luciana Bortowski, Dua e Adriana Meira
Luciana Bortowski apresentou “Memórias para o Futuro”, coleção desenvolvida em parceria com a Associação das Artesãs de Saubara. Elas são guardiãs da tradição da renda de bilro no Recôncavo Baiano. A coleção partiu das memórias afetivas ligadas ao fazer manual e da relação das rendeiras com o mar. Assim, construiu peças que uniram ancestralidade e contemporaneidade.
Redes de pesca, flores e peixes feitos em bilro apareceram aplicados manualmente sobre rendas tingidas em aquarela. Dessa maneira, criando texturas e nuances que evocaram o tempo, o sal e a memória. Sedas e jacquards reforçaram a pesquisa da marca em design regenerativo e economia circular. Já os bilros surgiram também como elemento sonoro e narrativo das criações.
Benditas
Já a Dua apresentou “Benditas”, coleção inspirada na trajetória de mulheres negras alforriadas que, no século XIX, fundaram uma irmandade na Igreja da Barroquinha. Elas uniram fé, resistência e ancestralidade sob o signo do sincretismo religioso.
Desenvolvida em parceria com as 17 bordadeiras da Chitarte, a coleção uniu o metal forjado característico da marca ao crivo artesanal produzido pelas artesãs. Por sua vez, valorizando o tempo do fazer manual e os saberes transmitidos entre gerações. As estampas assinadas pela artista Hanna Gomes reforçaram a dimensão simbólica e ancestral das peças. Assim, em uma homenagem às mulheres de fé e resistência da Bahia.
Para encerrar os desfiles do festival, Adriana Meira apresentou “Rio que Conta”. A coleção inspira-se nas artesãs dos quilombos da Barra, Riacho das Pedras e Bananal, na região banhada pelo rio Brumado. Essa é considerada a porta de entrada da Chapada Diamantina. A estilista mergulhou na força e na delicadeza do ponto crivo rústico para transformar memórias, caminhos e paisagens em linguagem visual.
Flores-diamantes e pontilhados que remetiam às estradas e travessias da região apareceram aplicados em vestidos, macacões, blazers, saias e camisetas. Portanto, compondo peças que evocaram o fluxo contínuo das histórias, das pessoas e das mudanças de percurso.
Feira de Moda Artesanal da Bahia
Enquanto os desfiles ocuparam o jardim no fim de semana, a Feira de Moda Artesanal da Bahia atuou durante os três dias de programação. Dessa forma, reunindo 23 artesãos e coletivos com peças em renda, bordado, crochê, acessórios e tecelagem.
A dimensão econômica e cultural do projeto foi destacada por Weslen Moreira, coordenador executivo de Fomento ao Artesanato da Bahia. Segundo ele, iniciativas como essa ajudam a posicionar o artesanato baiano em novos mercados. “É um encontro entre identidade, ancestralidade e inovação, que amplia oportunidades de geração de renda e fortalece a presença dos artesãos e artesãs baianos em espaços cada vez mais estratégicos no cenário nacional”, disse.
Sobre a Nordestesse
A Nordestesse é uma plataforma colaborativa voltada ao fortalecimento da economia criativa nordestina, com atuação nas áreas de moda, design, artes visuais, gastronomia e artesanato. A iniciativa desenvolve projetos, festivais, ações comerciais e mentorias voltadas à valorização da produção autoral e dos saberes tradicionais da região.
Sobre a Riachuelo
Com 77 anos de atuação, a Riachuelo é uma das maiores empresas de moda do Brasil. Dessa forma, tem mais de 400 lojas e cerca de 30 mil colaboradores em todo o país. Integrante do Grupo Guararapes, a marca atua em toda a cadeia produtiva da moda, do fio à vitrine. Assim, mantém iniciativas voltadas ao incentivo à criatividade, à cultura e ao desenvolvimento de talentos brasileiros por meio do Riachuelo Lab. A ação é uma plataforma de curadoria de talentos em moda, arte e cultura da Riachuelo. A iniciativa apoia projetos criativos e colaborativos ligados à produção cultural brasileira, com foco em inovação, desenvolvimento de talentos e fortalecimento do ecossistema criativo nacional.
Sobre o Artesanato da Bahia
O Programa do Artesanato da Bahia é uma política pública do Governo do Estado, vinculada à Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (SETRE). Assim, voltada à qualificação, promoção e fortalecimento da atividade artesanal baiana. O programa atua na geração de renda, valorização cultural e ampliação de oportunidades de comercialização para artesãos e associações de diferentes territórios do estado.
Foto: Sercio Freitas
