Flipelô bate recorde – A 10ª edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) entrou para a história. Realizada pela Fundação Casa de Jorge Amado, a festa levou mais de 330 mil pessoas ao Centro Histórico de Salvador ao longo de cinco dias de programação gratuita, registrando o maior público desde sua criação e consolidando-se como um dos mais importantes eventos literários do Brasil.
Em uma edição marcada pela celebração dos 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado, a Flipelô homenageou a escritora Myriam Fraga, poeta, jornalista e gestora cultural que idealizou a festa literária, homenagem que se estendeu ao artista plástico, gravador e ilustrador Calasans Neto, grande amigo de Myriam e responsável pelas ilustrações de diversas de suas obras.
Potência da literatura na cidade
Para Angela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado, o resultado da edição reflete a força da literatura e o carinho do público pela festa.
“Realizamos uma edição histórica. Celebramos os dez anos da Flipelô e os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado vendo o Pelourinho tomado por leitores, estudantes, escritores, artistas e famílias. A homenagem a Myriam Fraga e Calasans Neto emocionou o público e reafirmou o compromisso da festa com a literatura, a cultura e a democratização do acesso ao livro. A Flipelô é uma construção coletiva que pertence ao Centro Histórico, à Bahia e ao Brasil.”
Ao longo da programação, a Flipelô reuniu mais de 500 escritores brasileiros e nove convidados internacionais, representantes de cinco países — Estados Unidos, Portugal, Angola, Espanha e Sri Lanka — fortalecendo sua vocação para o diálogo entre diferentes culturas e tradições literárias.
Convidados de peso
Entre os convidados estiveram alguns dos principais nomes da literatura contemporânea, como Carla Madeira, Ana Maria Gonçalves, Aline Bei, Aline Motta, Eliana Alves Cruz, Bárbara Carine, Milton Hatoum, Tiganá Santana, Gregório Duvivier e Bráulio Bessa, além de centenas de autores baianos que ocuparam os diversos espaços da programação.
A valorização da produção literária baiana e independente permaneceu como uma das marcas da festa. A Casa das Editoras Baianas, a Varanda dos Expositores da Vila Literária, a Varanda dos Expositores do Espaço Infantil Mabel Velloso, o Espaço das Editoras Universitárias e o Espaço Palavra Borboleta – Ocupa Pelô Literário reuniram escritores, editoras e coletivos de diferentes regiões do estado, fortalecendo a bibliodiversidade e ampliando o acesso do público à produção local.
Homenagens a Myriam Fraga ocuparam todo o Pelourinho
A presença da escritora homenageada teve uma percepção em diferentes linguagens e espaços da cidade. Quatro exposições celebraram sua trajetória e seu legado: Amados Olhares, Fragmentos: uma homenagem a Myriam Fraga, Caixas de Afeto para Myriam – Um tributo a Myriam Fraga e Myriam Fraga: o tempo e a memória.
A literatura também dialogou com a gastronomia. A tradicional Rota Gastronômica Amados Sabores teve como tema “A Poesia de Myriam Fraga”, reunindo 46 restaurantes que criaram pratos e sobremesas inspirados em títulos de poemas da escritora.
Outro destaque foi a Rota dos Museus, que garantiu acesso gratuito à Fundação Casa de Jorge Amado, Museu da Misericórdia, Museu do Mar Aleixo Belov, Casa do Benin, MUNCAB, Museu Eugênio Teixeira Leal e Casa do Carnaval. O interesse do público foi tão grande e lido através de filas em diversos momentos para visitação à Fundação Casa de Jorge Amado e ao Museu da Misericórdia.
Literatura para todos
A acessibilidade voltou a ocupar papel central na programação da Flipelô. Além do Espaço Acessibilidade, instalado no Terreiro de Jesus, ações voltadas à inclusão estiveram presentes em todos os espaços da festa.
Pessoas com deficiência participaram não apenas como público, mas também como profissionais da equipe de produção, artistas, debatedores e convidados das mesas literárias, reafirmando o compromisso da Flipelô com uma cultura acessível e inclusiva.
No Terreiro de Jesus também funcionaram a tradicional Feira da Sé e o Espaço Sustentabilidade, dedicado a debates e atividades relacionadas à preservação ambiental e aos desafios contemporâneos ligados ao meio ambiente.
Escolas, infância e formação de leitores
Dezenas de escolas públicas e privadas participaram da programação da Flipelô. Os grupos que visitaram a Fundação Casa de Jorge Amado receberam gratuitamente o Conjunto Pedagógico. O kit é um material especialmente elaborado para auxiliar professores e estudantes no trabalho. Assim, fala sobre a obra de Zélia Gattai e Jorge Amado para ser mostrada em sala de aula.
As crianças também tiveram uma programação especialmente dedicada a elas no Espaço Infantil Mabel Velloso,. O local encantou o público com uma ambientação inspirada no mar e baseada nas ilustrações do livro infantil inédito de Myriam Fraga. A obra “Tem cardume no meu aquário”, inclusive, teve lançamento durante a festa.
As ilustrações da obra e toda a concepção visual do espaço levaram a asinatura do designer Leo Dantas, responsável também pela identidade visual da 10ª edição da Flipelô.
Música, cultura popular e ocupação do Centro Histórico
A programação artística ocupou largos, praças, ruas e equipamentos culturais de todo o Centro Histórico. Além do Palco Flipelô, instalado no Largo do Pelourinho, atividades aconteceram no Cruzeiro de São Francisco e na Praça da Sé. Além disso, em dezenas de espaços parceiros que integraram a programação da Flipelô Mais.
Grupos culturais do Pelourinho estiveram presentes ao longo dos cinco dias. Dessa maneira, reforçando a conexão da festa com a comunidade local e com as manifestações culturais do território.
No Palco Flipelô passaram artistas como Belô Velloso, responsável pelo emocionante espetáculo de abertura; Chico Chico, que levou grande público ao Largo do Pelourinho; o espetáculo Gira Mundo; Ana Mametto; e As Ganhadeiras de Itapuã, que encerraram a edição com uma apresentação marcada pela celebração da cultura popular baiana e pela homenagem a Calasans Neto.
Um legado que permanece no território
Mais do que os números alcançados durante cinco dias de programação, a Flipelô deixa um legado permanente para o Centro Histórico de Salvador. A festa fortalece a Fundação Casa de Jorge Amado, impulsiona a visitação aos museus e equipamentos culturais da região. Por sua vez, também movimenta a economia local e reafirma o Pelourinho como um dos mais importantes territórios culturais do país.
A criação da Fundação Casa de Jorge Amado, há 40 anos, foi decisiva para o processo de revitalização do Centro Histórico. Desde então, a instituição mantém suas portas abertas ao público durante todo o ano, promovendo atividades culturais, educativas e de preservação da memória literária brasileira. A Flipelô nasce desse trabalho permanente e amplia seu alcance. Dessa forma, ao transformar o Pelourinho em um grande palco para a literatura, as artes e os encontros entre diferentes gerações.
Arte no centro da cidade e difusão da cultura
Para Angela Fraga, o maior resultado da Flipelô não é apenas os números de público.
“A Flipelô tem uma característica muito especial. Ela não nasceu para gerar lucro, nasceu para fortalecer um território, uma instituição cultural e uma comunidade. Nosso maior patrimônio não é o número de visitantes, embora ele nos encha de alegria. Nosso maior patrimônio é ver a Fundação Casa de Jorge Amado fortalecida, os museus cheios, os espaços culturais movimentados, os comerciantes trabalhando, os artistas se apresentando e o Pelourinho reafirmando sua vocação como um dos grandes centros culturais do Brasil.”
“A Fundação Casa de Jorge Amado foi criada para preservar um legado literário, mas também para ajudar a manter viva a chama cultural do Centro Histórico. A Flipelô é uma extensão dessa missão. Diferentemente de muitos eventos, ela é realizada por uma instituição cultural viva, que funciona durante todo o ano, recebe visitantes de segunda a sábado e desenvolve ações permanentes de formação, preservação e incentivo à leitura. Tudo o que construímos durante a festa permanece depois que os palcos são desmontados.”
Sentido de comunidade
“A Flipelô só alcançou essa dimensão porque foi abraçada pela comunidade. Ela é construída coletivamente por moradores, instituições, artistas, comerciantes, escolas, museus e parceiros culturais. É uma festa que pertence ao Pelourinho e que cresce junto com ele. Essa relação de pertencimento é uma das razões do seu sucesso e da sua autenticidade.”
Com programação integralmente gratuita, a Flipelô consolidou ao longo de dez anos uma marca que a distingue entre os grandes eventos literários do país. Enquanto parte das festas literárias brasileiras cobra ingressos para o acesso a mesas, conferências e atividades especiais, a Flipelô mantém todos os seus espaços abertos ao público. Assim, a decisão reflete a compreensão de que a literatura deve ser acessível a todos. Portanto, reafirmando o compromisso da Fundação Casa de Jorge Amado com a democratização da cultura, a formação de leitores e a valorização do Pelourinho como território vivo de produção e difusão cultural.
Foto: Guilherme Weber de Lima/Fundação Casa de Jorge Amado
