Alimentação pode ajudar no controle dos sintomas da endometriose, mas não substitui tratamento

Nos últimos anos, a alimentação passou a ocupar um lugar de destaque nas discussões sobre saúde feminina, especialmente quando o assunto é endometriose. Em meio ao aumento de conteúdos nas redes sociais que prometem “curas naturais” ou dietas milagrosas, especialistas chamam atenção para a necessidade de separar informação científica de modismos.

A endometriose é uma doença inflamatória sistêmica caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Além da dor pélvica intensa, pode provocar alterações intestinais, fadiga, infertilidade e comprometer significativamente a qualidade de vida. Estudos mais recentes também demonstram que a doença possui forte componente genético e compartilha mecanismos com outras condições inflamatórias, mostrando a importância de estratégias capazes de modular esses processos, entre elas a alimentação.

“Hoje sabemos que a endometriose não é apenas uma doença localizada. Ela envolve processos inflamatórios em todo o organismo. Isso ajuda a explicar por que a alimentação pode contribuir para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida. A nutrição baseada em evidências significa justamente reconhecer os benefícios que a ciência já demonstrou, sem criar expectativas irreais. Nosso objetivo não é prometer cura, mas oferecer estratégias que possam ajudar cada paciente a viver melhor”, afirma Júlia Beux, nutricionista do Fleury Endometriose, do Grupo Fleury, detentor da Diagnoson a+ na Bahia.

Necessidades nutricionais variam conforme a idade

A nutricionista também destaca que as necessidades nutricionais mudam ao longo da vida e que esse contexto deve ser considerado no cuidado da endometriose. Da adolescência à idade reprodutiva, passando pela gestação e chegando à menopausa, alterações hormonais e metabólicas influenciam tanto os sintomas quanto as demandas do organismo. Por isso, uma alimentação equilibrada deve acompanhar essas diferentes fases, priorizando variedade, qualidade nutricional e adaptações individualizadas, em vez de restrições generalizadas.

“A nutrição não é igual para todas as mulheres nem permanece a mesma durante toda a vida. O que faz sentido para uma adolescente pode não ser o mais adequado para uma mulher que está tentando engravidar ou para quem já entrou na menopausa. A alimentação precisa acompanhar essas mudanças e respeitar a individualidade de cada paciente”, frisa Júlia.

Rigidez não é benéfica

Segundo a nutricionista, essa abordagem também ajuda a combater o chamado “terrorismo nutricional”, que costuma eliminar grupos inteiros de alimentos sem respaldo científico ou atribuir à dieta um papel que ela não possui. “Cada mulher apresenta manifestações diferentes da doença. Por isso, protocolos rígidos encontrados na internet nem sempre funcionam e, em alguns casos, podem até prejudicar a saúde”, acrescenta a especialista.

Entre as estratégias alimentares estudadas até o momento, a dieta Low-FODMAP apresenta os resultados mais consistentes para mulheres com endometriose que também sofrem com síndrome do intestino irritável. Esse padrão alimentar consiste na redução temporária de determinados carboidratos fermentáveis, presentes em alimentos como cebola, alho, trigo, leite e algumas frutas, que podem aumentar a produção de gases, distensão abdominal e desconforto digestivo em pessoas sensíveis. A proposta, no entanto, não é retirar esses alimentos permanentemente da alimentação. O protocolo deve ser conduzido por um nutricionista, que realiza uma fase de exclusão seguida da reintrodução gradual dos alimentos para identificar quais realmente provocam sintomas.

A dieta mediterrânea

Outro padrão alimentar que desperta interesse da comunidade científica é a dieta mediterrânea. Baseada no consumo frequente de frutas, verduras, legumes, grãos integrais, azeite de oliva, castanhas, peixes e leguminosas, ela é reconhecida por seus efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes. Estudos observacionais sugerem que mulheres com maior adesão a esse padrão alimentar apresentam menor probabilidade de diagnóstico de endometriose e níveis mais baixos de estresse oxidativo, um dos mecanismos envolvidos na inflamação da doença.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que ainda faltam ensaios clínicos robustos capazes de confirmar uma relação de causa e efeito. “A dieta mediterrânea reúne características que favorecem uma alimentação equilibrada e pode fazer parte da estratégia nutricional de muitas pacientes. Mas precisamos comunicar isso com responsabilidade. A ciência ainda está avançando e não podemos transformar associações em certezas”, destaca a nutricionista.

Alimentação sem falsas promessas

A popularização das redes sociais ampliou o acesso à informação, mas também favoreceu a disseminação de conteúdos sem respaldos científicos. “Hoje encontramos muitas mensagens extremas dizendo que determinado alimento causa ou cura doenças. Na prática, a nutrição é muito mais complexa. O foco deve estar na construção de hábitos sustentáveis, respeitando a individualidade de cada paciente e sempre considerando o conjunto do tratamento”, afirma Júlia.

A nutricionista reforça que a saúde não pode ser reduzida apenas à alimentação. Aspectos como atividade física, qualidade do sono, controle do estresse, tratamento medicamentoso quando indicado e acompanhamento multiprofissional também fazem parte do cuidado. Embora as pesquisas reforcem que a alimentação pode ser uma contribuição para reduzir sintomas e melhorar o bem-estar de mulheres com endometriose, nenhuma estratégia nutricional deve substituir o acompanhamento médico ou ter início sem orientação profissional.

“O avanço das pesquisas aponta caminhos promissores para integrar a nutrição ao manejo da doença, mas também reforça a mensagem de que em um ambiente repleto de promessas fáceis, a melhor aliada das pacientes continua sendo a informação baseada em evidências. O papel da alimentação não é oferecer soluções milagrosas, e sim fazer parte de um cuidado amplo, individualizado e construído com base na ciência”, conclui Júlia.

Foto de Júlia Beux: Ascom